“O diabo ainda levou Jesus a um monte muito alto, mostrou-lhe todos os reinos do mundo e a glória deles e disse: ‘Tudo isso lhe darei se, prostrado, você me adorar’. Então Jesus lhe ordenou: ‘Vá embora, Satanás, porque está escrito: Adore o Senhor, seu Deus, e preste culto somente a ele’” (Mateus 4:8–10).
Quando lemos a passagem sobre a tentação de Jesus em Mateus 4:1–11, bem como nos outros evangelhos (Mc 1:12–13; Lc 4:1–13), sempre analisamos as respostas de Jesus diante das tentadoras propostas feitas a Ele. Aplicamos diretamente o texto à nossa dificuldade de resistir ao pecado e reconhecer a força e a determinação de Jesus enquanto homem diante de ofertas irresistíveis para qualquer mortal. No entanto, quando lemos no original em grego as expressões utilizadas por Jesus, temos uma surpresa ainda maior sobre Ele nessa passagem.
Em seu livro Em Espírito e em Verdade: curso prático de liturgia (Editeo, 2011), o professor Rev. Luiz Carlos Ramos apresenta algumas explicações sobre os termos gregos ligados ao serviço e à liturgia e ao serviço no ambiente bíblico. Aqui vamos enfatizar o significado de duas palavras utilizadas por Jesus em Mateus 4:10b: proskyneo (adoração) e latreo (culto), esta última diretamente ligada ao serviço, pois o termo grego latris se refere ao servo que realizava o trabalho mais degradante da casa – a limpeza das latrinas.
O que Satanás apresenta para Jesus é uma proposta de “prosperidade”, que nos nossos dias está mais relacionada a dinheiro, lucro, êxito, grandezas, fama e sucesso pessoal. No entanto, as respostas de Jesus diante dessa oferta são de humildade, e não de arrogância, como às vezes a leitura do texto pode nos levar a crer.
Durante a leitura de Mateus 4:1–11, texto muito usado em pregações, em estudos bíblicos e na Escola Dominical, sempre olhamos Jesus vencendo o diabo com respostas eficazes, diretas e bem fundamentadas. Mas esquecemos que a situação em que Jesus se encontrava era de deserto, solidão, fome, fraqueza e completa escassez, ou seja, um ambiente favorável às tentações que Lhe foram feitas. No entanto, ao ler o texto novamente e rever as respostas de Jesus levando em consideração o cenário em que Ele se encontrava, você vai perceber que elas não são de força nem de prepotência baseada no conhecimento da Palavra e no status de filho do Deus criador de todas as coisas. Na verdade, são respostas de alguém que estava em sofrimento, mas se manteve humilde, pois as tentações poderiam não estar relacionadas diretamente ao que nossos olhos nos fazem perceber num primeiro momento.
Quando observamos que Jesus não tinha nenhum problema em multiplicar alimentos, como pães e peixes, nem em transformar uma coisa em outra, como a água em vinho, pela resposta de Jesus no texto — “Está escrito: ‘O ser humano não viverá só de pão, mas de toda palavra que procede da boca de Deus’” —, vemos que Ele não respondia diretamente à tentação da Sua fome, mas à necessidade de Seu próprio esvaziamento da Sua glória divina, a fim de cumprir Seu propósito.
Da mesma forma, quando vemos que Jesus andou sobre as águas, secou uma figueira, fez cessar uma tempestade e ressuscitou publicamente Lázaro, constatamos que Ele não estava preocupado em esconder ou em demonstrar publicamente Seus poderes divinos e Sua ligação direta com o Pai no atendimento de Suas ordens. Entretanto, a Sua resposta no deserto — “Também está escrito: ‘Não ponha à prova o Senhor, seu Deus’” — pode não estar diretamente ligada à tentação de mostrar Seu poder naquele momento, mas à tentação futura de ser confrontado a descer da cruz e a salvar-Se, já que era o filho de Deus. O mesmo sentido de esvaziamento tem o pedido de Jesus no Getsêmani para que o cálice passasse d’Ele, mas que primeiramente se cumprisse a vontade do Pai. Alguns o interpretam como uma súplica para não morrer, ou a Sua própria vontade humana de resistir a tudo aquilo, ou ainda, como eu prefiro interpretar, um pedido para que aquela angústia da morte passasse e então Ele pudesse cumprir Seu propósito até o fim, entregando Sua própria vida em sacrifício pela humanidade.
Por fim, quando vemos Jesus lavando os pés de Seus discípulos, acolhendo as crianças, falando com as mulheres e cercado de todos aqueles para os quais a sociedade e os religiosos da época olhavam de cima, compreendemos que o serviço santo e a devida adoração não se dão apenas no gesto de se curvar diante de um ser ou de uma imagem, como os religiosos da época interpretavam ao não fazer imagens nem adorar outras divindades. No deserto, diante da oferta de todos os reinos do mundo e da glória deles, Jesus ordena a Satanás que vá embora, “porque está escrito: ‘Adore o Senhor, seu Deus’ — προσκυνήσεις (proskynēseis) —, ‘e preste culto somente a Ele’” — λατρεύσεις (latreuseis) —, pode-se entender que a tentação está novamente ligada ao Seu esvaziamento, pois, confrontado com a proposta de orgulho, glória e grandeza perante tantos feitos, tantas maravilhas, reconhecimento e fama que acompanhariam Seu ministério, Jesus desejou continuar servindo, e não ser servido. O uso da palavra latreo por Jesus demonstra a que ponto Ele estava disposto a chegar para servir ao Seu propósito, disposto até mesmo a realizar o pior dos trabalhos, a morrer a pior e mais indigna das mortes.
Contudo, ao falarmos do esvaziamento de Jesus, não podemos confundir a humildade do Seu ministério/serviço (διάκονος = diakonia) com a qualidade com que Ele o realizou. O servo era humilde, o serviço podia ser o mais degradante, mas a entrega do servo e o resultado do serviço eram de extrema excelência. Se assim não fosse, não teríamos como resultado a salvação por meio de Jesus, após a Sua morte, ressurreição e ascensão, nem tampouco a vinda do Espírito Santo, cuja primeira ação, em Atos 2:4, foi servir aos discípulos, permitindo-lhes falar e compreender outras linguagens.
Nosso desafio enquanto igreja e como discípulos e discípulas é ter entre nós o mesmo modo de pensar de Cristo Jesus, que, embora existindo na forma de Deus, não considerou que o ser igual a Deus era algo que Ele deveria ostentar a qualquer momento; ao contrário, Jesus abriu mão de toda a Sua glória e reconhecimento, esvaziou-Se e tomou a natureza de servo, vivendo uma vida comum. Foi humilde e agiu humildemente com todos, permanecendo obediente até morrer numa cruz, a morte mais degradante de Seu tempo (Fp 2:5–8).
Numa sociedade que todos os dias nos estimula a ter, possuir, adquirir, comprar, buscar reconhecimento, glória e grandeza por nossos feitos e conquistas pessoais, que nossas vidas possam refletir a humildade de servir em todo o tempo, objetivando a mesma excelência do ministério de Jesus. Em nossa casa, na igreja, no trabalho, no estudo ou por onde passarmos, que a humildade e a excelência sejam marcas permanentes em nós e por meio de nós, a fim de que possamos resistir, assim como Jesus, em todos os ambientes propícios às tentações que possam nos desviar do alvo: a santidade integral, pessoal e social por meio de Jesus.
Deus nos abençoe e nos fortaleça para Sua missão!

Seminarista Paulo Roberto L. Almeida Junior
